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sexta-feira, 23 de maio de 2014

Fingir, padecer, morrer.

[Poeta Eterno]

Padeço de uma loucura mórbida.
A casa, enquanto cheia,
Me faz só padecer
quando ouso tentar.

Padeço um não ser amargo,
Ou um não ser armado.

Estranho padecer este que me consome,
não tão só quanto tão tempo,
Padeço tão infinitamente que,
se finjo ser gente,
padeço errante em pleonasmo
e sem rima.

Mas porque não finjo?
Um não padecer talvez.
Acontece então que dialético.
Porque fingir é padecer.
E é também destas coisas
que apodrece a gente.

Um dia, enquanto sentado à luz de uma lareira, descobri que a vida toda padeci de uma doença que se arrastou por minha mocidade, veio pingar cá dentro onde nem sabia, mas havia coisa e cor.

Roubara tantos amores meus, que meu padecer já tinha cores e propriedades, um quase ego formado e uma personalidade que não aturava desaforos. Meu padecer, carrancudo como só, assustava às moças, fazia chorar as crianças de colo, fazia chover a manhã colorida.

Minha doença de sempre padecer não tinha cura, era dessas auto-imunes.

E logo eu - ente que respirava, comia, bebia, portanto, vivia? - de repente matava-me aos poucos em padecer.

Padecia mesmo era de vontade de ser. Assim, ao invés de ser todo dia, morria todo dia junto ao comum da gente que anda na praça, chama o taxi e se vai sem pagar gorjeta e sem dizer adeus. Simples como a chegada, a partida.

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