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quarta-feira, 25 de abril de 2007

Poema: Sônia Pavan

Poema "roubado" da Sônia... minha eterna amiga!!

Crianças dormindo em úteros de papelão
Minha mãe, tua mãe
Catedrais em ruínas na minha mão
....o fim do mundo, enfim!
Minha mãe, não tenhas pena de mim!
Que tudo que eu quero
Se quero, se posso
É ver o pôr-do-sol maravilhando outros olhos
Que não os vidros destas estações de santos
Que não os mantos das almas espessas de marfim roubado,
Que não o fim dos mares, luas e lendas
(sendas abertas para os magros de espírito).
Luz sem alimento, eu te digo, minha fonte
Que hoje durou tanto tempo
Que brincaste comigo na tua monótona eternidade...
Que teu espírito bestificado
Marcou minha fronte e minha mão
(como se eu fosse tua...)
E, aliás, que papelão!
Deixar ao chão as marcas dos teus pés incompetentes
A torturar o caminho dos que ainda crêem
(e ainda os há)
Que o terremoto nos vitrais será caleidoscópico!
Que o fim será, enfim, o Fim.
Ai, que pena que tenho só de mim
Quando vislumbro a sangrenta descoberta da alma
Alma que roubo do teu manto, Mãe
Pra cobrir as crianças que dormem
Em úteros de papelão...
Pisos frios, onde eu sonhei
Haveria de sangrar alguém
De compaixão!

Sônia Pavan

Selecionados do Livro: Remorso Postumo - Charles Baudelaire

Livro: Remorso Postumo - Charles Baudelaire

Dedico este poema a mim mesmo

Quando fores dormir, ó bela tenebrosa,
Em teu negro e marmóreo mausoléu, e não
Tiveres por alcova e refúgio senão
Uma cova deserta e uma tumba chuvosa;

Quando a pedra, a oprimir tua carne medrosa
E teus flancos sensuais de lânguida exaustão,
Impedir de querer e arfar teu coração,
E teus pés de correr por trilha aventurosa,

O túmulo, no qual em sonho me abandono
— Porque o túmulo há sempre de entender o poeta —,
Nessas noites sem fim em que nos foge o sono,

Dir-te-á: “De que valeu cortesã indiscreta,
Ao pé dos mortos ignorar o seu lamento?”
— E o verme te roerá como um remorso lento.


As Queixas De Um Ícaro

Os rufiões das rameiras são
Ágeis, felizes e devassos;
Quanto a mim, fraturei os braços
Por ter-me alçado além do chão.

É graças aos mais raros astros,
Que o céu envolvem num lampejo,
Que, agora cego, já não vejo
Dos sóis senão os turvos rastros.

Eu quis do espaço em toda parte
Achar em vão o fim e o meio;
Não sei sob que olho de ígneo veio
Minha asa eu sinto que se parte;

E porque o belo ardeu comigo,
Perdi a glória e o benefício
De dar meu nome ao precipício
Que há de servir-me de jazigo.


A Varanda

Mãe das recordações, amante das amantes,
Tu, todo o meu prazer! Tu, todo o meu dever!
Hás de lembrar-te das carícias incessantes,
Da doçura do lar à luz do entardecer,
Mãe das recordações, amante das amantes!

As tardes à lareira, ao calor do carvão,
E as tardes na varanda, entre róseos matizes.
Quão doce era o seu seio e meigo o coração!
Dissemo-nos os dois as coisas mais felizes
As tardes à lareira, ao calor do carvão!

Quão soberbo era o sol nessas tardes douradas!
Que profundo era o espaço e como a alma era langue!
Curvado sobre ti, rainha das amadas,
Eu julgava aspirar o aroma de teu sangue.
Quão soberbo era o sol nessas tardes douradas!

A noite se adensava igual a uma clausura,
E no escuro os meus olhos viam-te as pupilas;
Teu hálito eu sorvia, ó veneno, ó doçura!
E dormiam teus pés em minhas mãos tranqüilas.
A noite se adensava igual a uma clausura!

Sei a arte de evocar as horas mais ditosas,
E revivo o passado imerso em teu regaço.
Para que procurar belezas voluptuosas
Se as encontro em teu corpo e em teu cálido abraço?
Sei a arte de evocar as horas mais ditosas!

Juras de amor, perfumes, beijos infinitos,
De um fundo abismo onde não chegam nossas sondas
Voltareis, como o sol retorna aos céus benditos
Depois de mergulhar nas mais profundas ondas?
— Juras de amor, perfumes, beijos infinitos!

JPC - Jornal das Pequenas Coisas 1º Edição

Olá gente, (to falando com quem?¬¬') [FELIZ!]
Resolvi fazer hoje, o meu jornalzinho de pequenas coisas, uma copia não autorizada da ideia linda da ausente Rita Apoena (E eu quero um livro dela!!!!\o/) no blog-mais-que-perfeito de preterito-mais-que-perfeito [http://ritaapoena.zip.net/].

Sr. e Sra. Blá!

Resolveu-se hoje no Forum da cidade de Besteiras a separação consensual do casal blá, que apos algumas brigas tinha optado pela separação.
Quando o juiz Musicista estava assinando a carta de sentença, o casal resolveu que queria a reconciliação.
O casal saiu do Fórum diretamente para casa, onde passaram a tarde toda olhando o céu e descobrindo novas formas nas núvens.
Viveram Sr. e Sra. Blá felizes para sempre?

O Concerto do lápis Solista

Acontecerá hoje na separação acústica da cidade de Estojo Verde, o concerto do Lápis Solista, os ingressos podem ser comprados na Rua dos lápis vendedores n.º 2 no centro do Estojo.

No concerto o Lápis tocará já consagradas canções acompanhado por nada mais nada menos que a Caneta Lirica, vinda diretamente de Porta-Canetas, terra de mestres como as irmãs gemêas, Caneta-Azul a famosa compositora de Blues e Caneta-Verde a famigerada autora de pérolas como "Papel colorido, caneta preta".

O Sr. Blá, que acaba de voltar com a esposa, esta organizando uma escursão pela Blá-e-Blá turismo, os interessados devem contata-lo por carta no endereço Rua dos Blás-Blás-Blás n.º 105.

[RSRSRSRSRRS Me diverti muito com esse jornal, quem sabe não aconteçam mais edições.]

Mas aproveitando o embalo de Rita a Apoena (rsrsr), falo um pouco mais dessa que é uma escritora perfeita, quero que o pessoal que visita meu blog (Alguem ai???), visite tambem o dela, que é muuuuito interessante.

terça-feira, 17 de abril de 2007

A Harmonia - Álvares de Azevedo

A Harmonia - Álvares de Azevedo



Meu Deus! se às vezes, na passada vida,
Eu tive sensações que emudeciam
Essa descrença que me dói na vida
E, como orvalho que a manhã vapora,
Em seus raios de luz a Deus me erguiam
Foi quando às vezes a modinha doce
Ao sol de minha terra me embalava
E quando as árias de Bellini pálido
Em lábios de Italiana estremeciam!

Ó santa Malibran! fora tão doce
Pelas noites suaves do silêncio
Nas lágrimas de amor, nos teus suspiros,
Na agonia de um beijo, ouvir gemendo
Entre meus sonhos tua voz divina!

Ó Paganini! quando moribundo
Inda a rabeca ao peito comprimias,
Se o hálito de Deus, essa alma d’anjo
Que das fibras do peito cavernoso
Arquejava nas cordas entornando
Murmúrios d’esperança e de ventura,
Se a alma de teu viver roçou passando
Nalgum lábio sedento de poesia,
Numa alma de mulher adormecida,
Se algum seio tremeu ao concebê-lo...
Esse alento de vida e de futuro
— Foi o teu seio, Malibran divina!

Ah! se nunca te ouvi, se teus suspiros,
Desdêmona sentida e moribunda,
Nunca pude beber no teu exílio...
Nos sonhos virginais senti ao menos
Tua pálida sombra vaporosa
Nesta fronte que a febre encandecera
Depor um beijo, suspirar passando!

Meu Deus! e, outrora, se um momento a vida
De poesia orvalhou meus pobres sonhos,
Foi nuns suspiros de mulher saudosa,
Foi abatida, a forma desmaiada,
Uma pobre infeliz que descorando
Fazia os prantos meus correr-me aos olhos!

Pobre! pobre mulher! esses mancebos
Que choravam por ti... quando gemias,
Quando sentias a tua alma ardente
No canto esvaecer, pálida e bela,
E teu lábio afogar entre harmonias
— Almas que de tua alma se nutriam!
Que davam-te seus sonhos, e amorosas
Desfolhavam-te aos pés a flor da vida...
Ai quantas não sentiste palpitantes,
Nem ousando beijar teu véu d’esposa,
Nas longas noites nem sonhar contigo!

E hoje riem de ti! da criatura
Que insana profanou as asas brancas!...
Que num riso sem dó, uma por uma,
Na torrente fatal soltava rindo,
E as sentia boiando solitárias...
As flores da coroa, como Ofélia!...
Que iludida do amor vendeu a glória
E deu seu colo nu a beijo impuro...
Eles riem de ti!... mas eu, coitada,
Pranteio teu viver e te perdôo.

Fada branca de amor, que sina escura
Manchou no teu regaço as roupas santas?
Por que deixavas encostada ao seio
A cabeça febril do libertino?
Por que descias das regiões doiradas
E lançavas ao mar a rota lira
Para vibrar tua alma em lábios dele?
Por que foste gemer na orgia ardente
A santa inspiração de teus poetas...
Perder teu coração em vis amores?
Anjo branco de Deus, que sina escura
Manchou no teu regaço as roupas santas?

Pálida Italiana! hoje esquecida.
O escárnio do plebeu murchou teus louros!
Tua voz se cansou nos ditirambos...
E tu não voltas com as mãos na lira
Vibrar nos corações as cordas virgens
E ao gênio adormecido em nossas almas
Na fronte desfolhar tuas coroas!...
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A CRUZ MUTILADA - Alexandre Herculano

A CRUZ MUTILADA - Alexandre Herculano

Amo-te, ó cruz, no vértice, firmada
De esplêndidas igrejas;
Amo-te quando à noite, sobre a campa,
Junto ao cipreste alvejas;
Amo-te sobre o altar, onde, entre incensos,
As preces te rodeiam;
Amo-te quando em préstito festivo
As multidões te hasteiam;
Amo-te erguida no cruzeiro antigo,
No adro do presbitério,
Ou quando o morto, impressa no ataúde,
Guias ao cemitério;
Amo-te, ó cruz, até, quando no vale
Negrejas triste e só,
Núncia do crime, a que deveu a terra
Do assassinado o pó:

Porém guando mais te amo,
Ó cruz do meu Senhor,
É, se te encontro à tarde,
Antes de o Sol se pôr,

Na clareira da serra,
Que o arvoredo assombra,
Quando à luz que fenece
Se estira a tua sombra,

E o dia últimos raios
Com o luar mistura,
E o seu hino da tarde
O pinheiral murmura.

*

E eu te encontrei, num alcantil agreste,
Meia quebrada, ó cruz. Sozinha estavas
Ao pôr do Sol, e ao elevar-se a Lua
Detrás do calvo cerro. A soledade
Não te pôde valer contra a mão ímpia,
Que te feriu sem dó. As linhas puras
De teu perfil, falhadas, tortuosas,
Ó mutilada cruz, falam de um crime
Sacrílego, brutal e ao ímpio inútil!
A tua sombra estampa-se no solo,
Como a sombra de antigo monumento,
Que o tempo quase derrocou, truncada.
No pedestal musgoso, em que te ergueram
Nossos avós, eu me assentei. Ao longe,
Do presbitério rústico mandava
O sino os simples sons pelas quebradas
Da cordilheira, anunciando o instante
Da ave-maria; da oração singela,
Mas solene, mas santa, em que a voz do homem
Se mistura nos cânticos saudosos,
Que a natureza envia ao Céu no extremo
Raio de sol, pasmado fugitivo
Na tangente deste orbe, ao qual trouxeste
Liberdade e progresso, e que te paga
Com a injúria e o desprezo, e que te inveja
Até, na solidão, o esquecimento!

*

Foi da ciência incrédula o sectário,
Acaso, ó cruz da serra, o que na face
Afrontas te gravou com mão profusa?
Não! Foi o homem do povo, a quem consolo
Na miséria e na dor constante hás sido
Por bem dezoito séculos: foi esse
Por cujo amor surgias qual remorso
Nos sonhos do abastado ou do tirano.
Bradando – esmola! a um; piedade! ao outro.

Ó cruz, se desde o Gólgota não foras
Símbolo eterno de urna crença eterna;
Se a nossa fé em ti fosse mentida,
Dos opressos de outrora os livres netos
Por sua ingratidão dignos de opróbio,
Se não te amassem, ainda assim seriam.
Mas és núncia do Céu, e eles te insultam,
Esquecidos das lágrimas perenes
Por trinta gerações, que guarda a campa.
Vertidas a teus pés nos dias torvos
Do seu viver d'escravidão! Deslembram-se

De que. se a paz doméstica, a pureza
Do leito conjugal bruta violência
Não vai contaminar, se a filha virgem
Do humilde camponês não é ludíbrio
Do opulento, do nobre, ó Cruz. to devem;
Que por ti o cultor de férteis campos
Colhe tranquilo da fadiga o prémio,
Sem que a voz de um senhor, qual dantes, dura
Lhe diga: «É meu, e és meu! A mim deleites,
Liberdade, abundância: a ti, escravo,
O trabalho. a miséria unido à terra,
Que o suor dessa fronte fertiliza,
Enquanto, em dia de furor ou tédio,
Não me apraz com teus restos fecundá-la.»

Quando calada a humanidade ouvia
Este atroz blasfemar, tu te elevaste
Lá do Oriente, ó Cruz, envolta em glória,
E bradaste, tremenda, ao forte, ao rico:
«Mentira!», e o servo alevantou os olhos,
Onde a esperança cintilava, a medo,
E viu as faces do senhor retintas
Em palidez mortal, e errar-lhe a vista
Trépida, vaga. A cruz no céu do Oriente
Da liberdade anunciara a vinda.

Cansado, o ancião guerreiro, que a existência
Desgastou no volver de cem combates,
Ao ver que, enfim, o seu país querido
Já não ousam calcar os pés d'estranhos,
Vem assentar-se à luz meiga da tarde,
Na tarde do viver, junto do teixo
Da montanha natal. Na fronte calva,
Que o sol tostou e que enrugaram anos,
Há um como fulgor sereno e santo.
Da aldeia semideus, devem-lhe todos
D tecto, a liberdade, e a honra e vida.
Ao perpassar do veterano, os velhos
A mão que os protegeu apertam gratos;
Com amorosa timidez os moços
Saúdam-no qual pai. Nus largas noites
Da gelada estação, sobre a lareira
Nunca lhe falta o cepo incendiado;
Sobre a mesa frugal nunca, no estio,
Refrigerante pomo. Assim do velho
Pelejador os derradeiros dias
Derivam paru o túmulo suaves,
Rodeados de afecto, e quando à terra
A mão do tempo gastador o guia,
Sobre a lousa a saudade ainda lhe esparze
Flores, lágrimas, bênçãos, que consolem
Do defensor do fraco as cinzas frias.

Pobre cruz! Pelejaste mil combates,
Os gigantes combates dos tiranos,
E venceste. No solo libertado,
Que pediste? Um retiro no deserto,
Um píncaro granítico, açoutado
Pelas asas do vento e enegrecido
Por chuvas e por sóis. Para ameigar-te
Este ar húmido e gélido a segure
Não foi ferir do bosque o rei. Do Estio
No ardor canicular nunca disseste:
«Dai-me, sequer, do bravo medronheiro
O desprezado fruto!» O teu vestido
Era o musgo, que tece a mão do Inverno
E Deus criou para trajar as rochas.
Filha do céu, o céu era o seu tecto,
Teu escabelo o dorso da montanha.
Tempo houve em que esses braços te adornava
C'roa viçosa de gentis boninas,
E o pedestal te rodeavam preces.
Ficaste em breve só, e a voz humana
Fez, pouco a pouco, junto a ti silêncio.
Que te importava? As árvores da encosta
Curvavam-se a saudar-te, e revoando
As aves vinham circundar-te de hinos.
Afagava-te o raio derradeiro,
Frouxo do Sul ao mergulhar nos mares.
E esperavas o túmulo. O teu túmulo
Devera ser o seio destas serras,
Quando, em Génesis novo, à voz do Eterno,
Do orbe ao núcleo fervente, que as gerara,
Elas nus fauces dos bolcões descessem.
Então para essa campa flores, bênçãos,
Ou é saudade lágrimas vertidas,
Qual do velho soldado a lousa pede,
Não pediras à ingrata raça humana,
Ao pé de ti no seu sudário envolta.

*

Este longo esperar do dia extremo,
No esquecimento do ermo abandonada,
Foi duro de sofrer aos teus remidos,
Ó redentora cruz. Eras, acaso,
Como um remorso e acusação perene
No teu rochedo alpestre, onde te viam
Pousar tristonha e só? Acaso, à noite,
Quando a procela no pinhal rugia,
Criam ouvir-te a voz acusadora
Sobreelevar à voz da tempestade?
Que lhes dizias tu? De Deus falavas,
E do seu Cristo, do divino mártir,
Que a ti, suplício e afronta, a ti maldita
Ergueu, purificou, clamando ao servo,
No seu transe: «Ergue-te, escravo!
És livre, como é pura a cruz da infâmia.
Ela vil e tu vil, santos, sublimes
Sereis ante meu Pai. Ergue-te, escravo!
Abraça tua irmã: segue-a sem susto
No caminho dos séculos. Da Terra
Pertence-lhe o porvir, e o seu triunfo
Trará da tua liberdade o dia.»

Eis porque teus irmãos te arrojam pedras,
Ao perpassar, ó cruz! Pensam ouvir-te
Nos rumores da noite, a antiga história
Recontando do Gólgota, lembrando-lhes
Que só ao Cristo a liberdade devem,
E que ímpio o povo ser é ser infame.
Mutilado por ele, a pouco e pouco,
Tu em fragmentos tombarás do cerro,
Símbolo sacrossanto. Hão-de os humanos
Aos pés pisar-te; e esquecerás no mundo.
Da gratidão a dívida não paga
Ficará, ó tremenda acusadora,
Sem que as faces lhes tinja a cor do pejo;
Sem que o remorso os corações lhes rasgue.
Do Cristo o nome passará na Terra.

*

Não! Quando, em pó desfeita, a cruz divina
Deixar de ser perene testemunha
Da avita crença, os montes, a espessura,
O mar, a Lua, o murmurar da fonte,
Da natureza as vagas harmonias,
Da cruz em nome, falarão do Verbo.

Dela no pedestal, então deserto,
Do deserto no seio, ainda o poeta
Virá, talvez, ao pôr do Sol sentar-se;
E a voz da selva lhe dirá que é santo
Este rochedo nu, e um hino pio
A solidão lhe ensinará e a noite.

Do cântico futuro unta toada
Não sentes vir, ó cruz, de além dos tempos
Da brisa do crepúsculo nus asas?
É o porvir que te proclama eterna;
É a voz do poeta a saudar-te.

*

Montanha do Oriente,
Que, sobre as nuvens elevando o cume,
Divisas logo o Sol, surgindo a aurora,
E que, lá no Ocidente,
Última vez seu radioso lume,
Em ti minha alma a eterna cruz adora.

Rochedo, que descansas
No promontório nu e solitário,
Como atalaia que o oceano explora,
Alheio ás mil mudanças
Que o mundo agitam turbulento e vário,
Em ti minha alma a eterna cruz adora.

Sobros, robles frondentes,
Cuja sombra procura o viandante,
Fugindo ao Sol a prumo que o devora,
Nesses dias ardentes
Em que o Leão nos céus passa radiante,
Em ti minha alma a eterna cruz adora.

Ó mato variado,
De rosmaninho e murta entretecido,
De cujas ténues flores se evapora
Aroma delicado,
Quando és por leve aragem sacudido,
Em ti minha alma a eterna cruz adora.

Ó mar, que vais quebrando
Rolo após rolo pela praia fria,
E fremes som de paz consoladora,
Dormente murmurando
Na caverna marítima sombria,
Em li minha alma a eterna cruz adora.

Ó Lua silenciosa,
Que em perpétuo volver. seguindo a Terra,
Esparzes tua luz ameigadora
Pela serra formosa,
E pelos lagos que em seu seio encerra,
Em ti minha alma a eterna cruz adora.

Debalde o servo ingrato
No pó te derribou
E os restos te insultou,
Ó veneranda cruz:

Embora eu te não veja
Neste ermo pedestal;
És santa, és imortal;
Tu és a minha luz!

Nas almas generosas
Gravou-te a mão de Deus,
E, à noite, fez nos céus
Teu vulto cintilar.

Os raios das estrelas
Cruzam o seu fulgor;
Nas horas do furor
As vagas cruza o mar.

Os ramos enlaçados
Do roble, choupo e til
Cruzando em modos mil,
Se vão entretecer.

Ferido, abre-o guerreiro
Os braços, solta um ai,
Pára, vacila, e cai
Para não mais se erguer.

Cruzado aperta ao seio
A mãe o filho seu,
Que busca, mal nasceu,
Fontes da vida e amor.

Surges; símbolo eterno,
No Céu, na Terra e mar,
Do forte no expirar,
E do viver no alvor!

A Cantiga do Sertanejo - Álvares de Azevedo

A Cantiga do Sertanejo - Álvares de Azevedo



Love me, and leave me not.

SHAKESPEARE, Merch. Of Venice


Donzela! Se tu quiseras
Ser a flor das primaveras
Que tenho no coração:
E se ouviras o desejo
Do amoroso sertanejo
Que descora de paixão!...

Se tu viesses comigo
Das serras ao desabrigo
Aprender o que é amar...
— Ouvi-lo no frio vento,
Das aves no sentimento,
Nas águas e no luar!...

Ouvi-lo nessa viola,
Onde a modinha espanhola
Sabe carpir e gemer!...
Que pelas horas perdidas
Tem cantigas doloridas,
Muito amor, muito doer...

Pobre amor! o sertanejo
Tem apenas seu desejo
E as noites belas do val!...
Só o ponche adamascado,
O trabuco prateado
E o ferro de seu punhal!...

E tem as lendas antigas
E as desmaiadas cantigas
Que fazem de amor gemer!...
E nas noites indolentes
Bebe cânticos ardentes
Que fazem estremecer!...

Tem mais... na selva sombria
Das florestas a harmonia,
Onde passa a voz de Deus,
E nos relentos da serra
Pernoita na sua terra,
No leito dos sonhos seus!

Se tu viesses, donzela,
Verias que a vida é bela
No deserto do sertão:
Lá têm mais aroma as flores
E mais amor os amores
Que falam do coração!

Se viesses inocente
Adormecer docemente
À noite no peito meu!...
E se quisesses comigo
Vir sonhar no desabrigo
Com os anjinhos do céu!

É doce na minha terra
Andar, cismando, na serra
Cheia de aroma e de luz,
Sentindo todas as flores,
Bebendo amor nos amores
Das borboletas azuis!

Os veados da campina
Na lagoa, entre a neblina,
São tão lindos a beber!...
Da torrente nas coroas
Ao deslizar das canoas
É tão doce adormecer!...

Ah! Se viesses, donzela,
Verias que a vida é bela
No silêncio do sertão!
Ah!... morena, se quiseras
Ser a flor das primaveras
Que tenho no coração!

Junto às águas da torrente
Sonharias indolente
Como num seio d’irmã!...
— Sobre o leito de verduras
O beijo das criaturas
Suspira com mais afã!

E da noitinha as aragens
Bebem nas flores selvagens
Efluviosa fresquidão!...
Os olhos têm mais ternura
E os ais da formosura
Se embebem no coração!...

E na caverna sombria
Tem um ai mais harmonia
E mais fogo o suspirar!...
Mais fervoroso o desejo
Vai sobre os lábios num beijo
Enlouquecer, desmaiar!...

E da noite nas ternuras
A paixão tem mais venturas
E fala com mais ardor!...
E os perfumes, o luar,
E as aves a suspirar,
Tudo canta e diz — amor!

Ah! vem! amemos! vivamos!
O enlevo do amor bebamos
Nos perfumes do serão!
Ah! Virgem, se tu quiseras
Ser a flor das primaveras
Que tenho no coração!...

A CACHOEIRA DE PAULO AFONSO - Castro Alves

A CACHOEIRA DE PAULO AFONSO - Castro Alves

Je ne sais vraiment si j’jaurai mérité qu’on dépose un jour un laurier sur mon cercueil. La poésie, quelque soit mon amour pour elle, n’a toujours été pour moi qu’un moyen consacré pour un but sain.

Je n’ai jamais attaché un trop grand prix à la gloire de mes poèmes, et peu m’importe qu’on les loue, ou qu’on les blâme. Mais ce sera un glaive, que vous devez placer sur ma tombe, car j’ai été un brave soldat dans la guerre de délivrance de l’humanité.

Heinrich Heine (Reisebilder)

A Tarde

Era a hora em que a tarde se debruça

Lá da crista das serras mais remotas...

E d’araponga o canto, que soluça,

Acorda os ecos nas sombrias grotas;

Quando sobre a lagoa, que s’embuça,

Passa o bando selvagem das gaivotas...

E a onça sobre as lapas salta urrando,

Da cordilheira os visos abalando.

Era a hora em que os cardos rumorejam

Como um abrir de bocas inspiradas,

E os angicos as comas espanejam

Pelos dedos das auras perfumadas...

A hora em que as gardênias, que se beijam,

São tímidas, medrosas, despojadas;

E a pedra... a flor... as selvas... os condores

Gaguejam... falam... cantam seus amores!

Hora meiga da Tarde! Como és bela

Quando surges do azul da zona ardente!

... Tu és do céu a pálida donzela,

Que se banha nas termas do oriente...

Quando é gota do banho cada estrela,

Que te rola da espádua refulgente...

E, - prendendo-te a trança a meia lua,

Te enrolas em neblinas seminua!...

Eu amo-te, ó mimosa do infinito!

Tu me lembras o tempo em que era infante.

Inda adora-te o peito do precito

No meio do martírio excruciante;

E, se não te dá mais da infância o grito

Que o menino elevava-te arrogante,

É que agora os martírios foram tantos,

Que mesmo para o riso só tem prantos...

Mas não m’esqueço nunca dos fraguedos

Onde infante selvagem me guiavas,

E os ninhos do sofrer que entre os silvedos

Da embaíba nos ramos me apontavas;

Nem, mais tarde, dos lânguidos segredos

De amor do nenufar que enamoravas...

E as tranças mulheris da granadilha!...

E os abraços fogosos da baunilha!...

E te amei tanto – cheia de harmonias

A murmurar os cantos da serrana, -

A lustrar o broquel das serranias,

A doirar dos rendeiros a cabana...

E te amei tanto – à flor das águas frias –

Da lagoa agitando a verde cana,

Que sonhava morrer entre os palmares,

Fitando o céu ao tom dos teus cantares!...

Mas hoje, da procela aos estridores,

Sublime, desgrenhada sobre o monte,

Eu quisera fitar-te entre os condores

Das nuvens arruivadas do horizonte...

... Para então, - do relâmpago aos livores,

Que descobrem do espaço a larga fronte, -

Contemplando o infinito..., na floresta

Rolar ao som da funeral orquesta!!!

Maria

Onde vais à tardezinha,

Mucama tão bonitinha,

Morena flor do sertão?

A grama um beijo te furta

Por baixo da saia curta,

Que a perna te esconde em vão...

Mimosa flor das escravas!

O bando das rolas bravas

Voou com medo de ti!...

Levas hoje algum segredo...

Pois te voltaste com medo

Ao grito do bem-te-vi!

Serão amores deveras?

Ah! Quem dessas primaveras

Pudesse a flor apanhar?

E contigo, ao tom d’aragem,

Sonhar na rede selvagem...

À sombra do azul palmar!

Bem feliz quem na viola

Te ouvisse a moda espanhola

Da lua ao frouxo clarão...

Com a luz dos astros – por círios,

Por leito – um leito de lírios...

E por tenda – a solidão!

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O Baile na Flor

Que belas as margens do rio possante,

Que ao largo espumante campeia sem par!...

Ali das bromélias nas flores doiradas

Há silfos e fadas, que fazem seu lar...

E, em lindos cardumes,

Sutis vaga-lumes

Acendem os lumes

P’ra o baile na flor.

E então – nas arcadas

Das pet’las doiradas,

Os grilos em festa

Começam na orquesta

Febris a tocar...

E as breves

Falenas

Vão leves,

Serenas,

Em bando

Girando,

Valsando,

Voando

No ar!...

Na Margem

“Vamos! Vamos! Aqui por entre os juncos

Ei-la a canoa em que eu pequena outrora

Voava nas maretas... Quando o vento,

Abrindo o peito à camisinha úmida,

Pela testa enrolava-me os cabelos,

Ela voava qual marreca brava

No dorso crespo da feral enchente!

Voga, minha canoa! Voga ao largo!

Deixa a praia, onde a vaga morde os juncos

Como na mata os caititus bravios...

Filha das ondas! andorinha arisca!

Tu, que outrora levavas minha infância

- Pulando alegre no espumante dorso

Dos cães-marinhos a morder-te a proa. -

Leva-me agora a mocidade triste

Pelos ermos do rio ao longe... ao longe...”

Assim dizia a Escrava...

Iam caindo

Dos dedos do crepúsc’lo os véus de sombra,

Com que a terra se vela como noiva

Para o doce himeneu das noite límpidas...

Lá no meio do rio, que cintila,

Como o dorso de enorme crocodilo,

Já manso e manso escoa-se a canoa.

Parecia, assim vista ao sol poente,

Esses ninhos, que tombam sobre o rio,

E onde em meio das flores vão chilrando

- Alegres sobre o abismo – os passarinhos!...

.........................................................................

Tu – guardas algum segredo?...

Maria, ’tás a chorar?

Onde vais? Por que assim foges,

Rio abaixo a deslizar?

Pedra – não tens o teu musgo?

Não tens um favônio – flor?

Estrela – não tens um lago?

Mulher – não tens um amor?

A Queimada

Meu nobre perdigueiro! vem comigo.

Vamos a sós, meu corajoso amigo,

Pelos ermos vagar!

Vamos lá dos gerais, que o vento açoita,

Dos verdes capinais n’agreste moita

A perdiz levantar!...

Mas não!... Pousa a cabeça em meus joelhos...

Aqui, meu cão!... Já de listrões vermelhos

O céu se iluminou.

Eis súbito da barra do ocidente,

Doudo, rubro, veloz, incandescente,

O incêndio acordou!

A floresta rugindo as comas curva...

As asas foscas o gavião recurva,

Espantado a gritar.

O estampido estupendo das queimadas

Se enrola de quebradas em quebradas,

Galopando no ar.

E a chama lavra qual jibóia informe,

Que, no espaço vibrando a cauda enorme,

Ferra os dentes no chão...

Nas rubras roscas estortega as matas...

Que espadanam o sangue das cascatas

Do roto coração!...

O incêndio – leão ruivo, ensangüentado,

A juba, a crina atira desgrenhado

Aos pampeiros dos céus!...

Travou-se o pugilato... e o cedro tomba...

Queimado... retorcendo na hecatomba

Os braços para Deus.

A queimada! A queimada é uma fornalha!

A irara – pula; o cascavel – chocalha...

Raiva, espuma o tapir!

... E às vezes sobre o cume de um rochedo

A corça e o tigre – náufragos do medo –

Vão trêmulos se unir!

Então passa-se ali um drama augusto...

N’último ramo do pau-d’arco adusto

O jaguar se abrigou...

Mas rubro é o céu... Recresce o fogo em mares...

E após... tombam as selvas seculares...

E tudo se acabou!...

Lucas

Quem fosse naquela hora,

Sobre algum tronco lascado

Sentar-se no descampado

Da solitária ladeira,

Veria descer da serra,

Onde o incêndio vai sangrento,

A passo tardio e lento,

Um belo escravo da terra

Cheio de viço e valor...

Era o filho das florestas!

Era o escravo lenhador!

Que bela testa espaçosa,

Que olhar franco e triunfante!

E sob o chapéu de couro

Que cabeleira abundante!

De marchetada jibóia

Pende-lhe a rasto o facão...

E assim... erguendo o machado

Na larga e robusta mão...

Aquele vulto soberbo,

- Vivamente alumiado, -

Atravessa o descampado

Como uma estátua de bronze

Do incêndio ao fulvo clarão.

Desceu a encosta do monte,

Tomou do rio o caminho...

E foi cantando baixinho

Como quem canta p’ra si.

Era uma dessas cantigas

Que ele um dia improvisara,

Quando junto da coivara

Faz-se o Escravo – trovador.

Era um canto languoroso,

Selvagem, belo, vivace,

Como o caniço que nasce

Sob os raios do Equador.

Eu gosto dessas cantigas,

Que me vêm lembrar a infância,

São minhas velhas amigas,

Por elas morro de amor...

Deixai ouvir a toada

Do – cativo lenhador –



E o sertanejo assim solta a tirana,

Descendo lento p’ra a servil cabana...

Tirana

“Minha Maria é bonita,

Tão bonita assim não há;

O beija-flor quando passa

Julga ver o manacá.

“Minha Maria é morena,

Como as tardes de verão;

Tem as tranças da palmeira

Quando sopra a viração.

“Companheiros! O meu peito

Era um ninho sem senhor;

Hoje tem um passarinho

P’ra cantar o seu amor.

“Trovadores da floresta!

Não digam a ninguém, não!...

Que Maria é a baunilha

Que me prende o coração.

“Quando eu morrer só me enterrem

Junto às palmeiras do val,

Para eu pensar que é Maria

Que geme no taquaral...”

A Senzala

Qual o veado, que buscou o aprisco,

Balindo arisco, para a cerva corre...

Ou como o pombo, que os arrulos solta,

Se ao ninho volta, quando a tarde morre...

Assim, cantando a pastoril balada,

Já na esplanada o lenhador chegou.

Para a cabana da gentil Maria

Com que alegria a suspirar marchou!

Ei-la a casinha... tão pequena e bela!

Como é singela com seus brancos muros!

Que liso teto de sapé doirado!

Que ar engraçado! que perfumes puros!

Abre a janela para o campo verde,

Que além se perde pelos cerros nus...

A testa enfeita da infantil choupana

Verde liana de festões azuis.

É este o galho da rolinha brava,

Aonde a escrava seu viver abriga...

Canta a jandaia sobre a curva rama

E alegre chama sua dona amiga.

Aqui n’aurora, abandonando os ninhos,

Os passarinhos vêm pedir-lhe pão;

Pousam-lhe alegres nos cabelos bastos,

Nos seios castos, na pequena mão.

_________

Eis o painel encantado,

Que eu quis pintar, mas não pude...

Lucas melhor o traçara

Na canção suave e rude...

Vede que olhar, que sorriso

S’expande no brônzeo rosto,

Vendo o lar do seu amor...

Ai! da luz do Paraíso

Bate-lhe em cheio o fulgor.

Diálogo dos Ecos

E chegou-se p’ra vivenda

Risonho, calmo, feliz...

Escutou... mas só ao longe

Cantavam as juritis...

Murmurou: “Vou surpr’endê-la!”

E a porta ao toque cedeu...

“Talvez agora sonhando

Diz meu nome o lábio seu,

Que a dormir nada prevê...”

E o eco responde: - Vê!...

“Como a casa está tão triste!

Que aperto no coração!...

Maria?... Ninguém responde!

Maria, não ouves, não?...

Aqui vejo uma saudade

Nos braços dizer tais prantos,

Que rolam tantos, tantos,

Sobre as faces da saudade

Sobre os braços de Jesus?...

Oh! quem me empresta uma luz?...

Quem me arranca a ansiedade,

Que no meu peito nasceu?

Quem deste negro mistério

Me rasga o sombrio véu?...”

E o eco responde: - Eu!...

E chegou-se para o leito

Da casta flor do sertão...

Apertou co’a mão convulsa

O punhal e o coração!...

’Stava inda tépido o ninho

Cheio de aromas suaves...

E - como a pena, que as aves

Deixam no musgo ao voar, -

Um anel de seus cabelos

Jazia cortado a esmo

Como relíquia no altar!...

Talvez prendendo nos elos

Mil suspiros, mil anelos,

Mil soluços, mel desvelos,

Que ela deu-lhes pr’a guardar!...

E o pranto em baga a rolar...

“Onde a pomba foi perder-se?

Que céu minha estrela encerra?

Maria, pobre criança,

Que fazes tu sobre a terra?”

E o eco responde: - Erra!

“Partiste! Nem te lembraste

Deste martírio sem fim!...

Não! perdoa... tu choraste

E os prantos, que derramaste,

Foram vertidos por mim...

Houve pois um braço estranho,

Robusto, feroz, tamanho,

Que pôde esmagar-te assim?...”

E o eco responde: - Sim!

E rugiu: “Vingança! Guerra!

Pela flor, que me deixaste,

Pela cruz, em que rezaste,

E que teus prantos encerra!

Eu juro guerra de morte

A quem feriu desta sorte

O anjo puro da terra...

Vê como este braço é forte!

Vê como é rijo este ferro!

Meu golpe é certo... não erro.

Onde há sangue, sangue escorre?...

Vilão! Deste ferro e braço

Nem a terra, nem o espaço,

Nem mesmo Deus te socorre!!...”

E o eco responde: - Corre!

Como o cão ele em torno o ar aspira,

Depois se orientou.

Fareja as ervas... descobriu a pista

E rápido marchou.

...........................................................

No entanto sobre as águas, que cintilam,

Como o dorso de enorme crocodilo,

Já manso e manso escoa-se a canoa;

Parecia assim vista – ao sol poente –

Esses ninhos, que o vento lança às águas,

E que na enchente vão boiando à toa!...

O Nadador

Ei-lo que ao rio arroja-se.

As vagas bipartiram-se;

Mas rijas contraíram-se

Por sobre o nadador...

Depois s’entreabre lúgubre

Um círculo simbólico...

É o riso diabólico

Do pego zombador!

Mas não! Do abismo – indômito

Surge-me um rosto pálido,

Como o Netuno esquálido,

Que amaina a crina ao mar;

Fita o batel longínquo

Na sombra do crepúsculo...

Rasga com férreo músculo

O rio par a par.

Vagas! Dalilas pérfidas!

Moças, que abris um túmulo,

Quando do amor no cúmulo

Fingis nos abraçar!

O nadador intrépido

Vos toca as tetas cérulas...

E após – zombando – as pérolas

Vos quebra do colar.

Vagas! Curvai-vos tímida!

Abri fileiras pávidas

Às mãos possantes, ávidas

Do nadador audaz!...

Belo, de força olímpica

- Soltos cabelos úmidos –

Braços hercúleos, túmidos...

É o rei dos vendavais!

Mas ai! Lá ruge próxima

A correnteza hórrida,

Como da zona tórrida

A boicininga a urrar...

É lá que o rio indômito,

Como o corcel da Ucrânia,

Rincha a saltar de insânia,

Freme e se atira ao mar.

Tremeste? Não! Qu’importa-te

Da correnteza o estrídulo?

Se ao longe vês teu ídolo,

Ao longe irás também...

Salta à garupa úmida

Desde corcel titânico...

- Novo Mazeppa oceânico –

Além! além! além...

No Barco

- Lucas! - Maria! Murmuraram juntos...

E a moça em pranto lhe caiu nos braços.

Jamais a parasita em flóreos laços

Assim ligou-se ao piquiá robusto...

Eram-lhe as tranças a cair no busto

Os esparsos festões da granadilha...

Tépido aljôfar o seu pranto brilha,

Depois resvala no moreno seio...

Oh! doces horas de suave enleio!

Quando o peito da virgem mais arqueja,

Como o casal da rola sertaneja,

Se a ventania lhe sacode o ninho.

Cantai, ó brisas, mas cantai baixinho!

Passai, ó vagas..., mas passai de manso!

Não perturbeis-lhe o plácido remanso,

Vozes do ar! Emanações do rio!

“Maria, fala!” – “Que acordar sombrio”,

Murmura a triste com um sorriso louco,

“No Paraíso eu descansava um pouco...

Tu me fizeste despertar na vida...

“Por que não me deixaste assim pendida

Morrer co’a fronte oculta no teu peito?

Lembrei-me os sonhos do materno leito

Nesse momento divinal... Qu’importa?...

“Toda esperança para mim ’sta morta...

Sou flor manchada por cruel serpente...

Só de encontro nas rochas pode a enchente

Lavar-me as nódoas, m’esfolhando a vida.

“Deixa-me! Deixa-me a vagar perdida...

Tu! - Parte! Volve para os lares teus.

Nada perguntes... é um segredo horrível...

Eu te amo ainda... mas agora – adeus!”

Adeus

- Adeus - Ai criança ingrata!

Pois tu me disseste – adeus -?

Loucura! melhor seria

Separar a terra e os céus.

- Adeus - palavra sombria!

De uma alma gelada e fria

És a derradeira flor.

- Adeus! - miséria! Mentira

De um seio que não suspira,

De um coração sem amor.

Ai, Senhor! A rola agreste

Morre se o par lhe faltou.

O raio que abrasa o cedro

A parasita abrasou.

O astro namora o orvalho:

- Um é a estrela do galho,

- Outro o orvalho da amplidão.

Mas, à luz do sol nascente,

Morre a estrela – no poente!

O orvalho – morre no chão!

Nunca as neblinas do vale

Souberam dizer-se – adeus –

Se unidas partem da terra,

Perdem-se unidas nos céus.

A onda suspira na plaga...

Porém vem logo outra vaga

P’ra morrer da mesma dor...

- Adeus – palavra sombria!

Não digas – adeus –, Maria!

Ou não me fales de amor!

Mudo e Quedo

E calado ficou... De pranto as bagas

Pelo moreno rosto deslizaram,

Qual da braúna, que o machado fere,

Lágrimas saltam de um sabor amargo.

Mudos, quedos os dois neste momento

Mergulhavam no dédalo d’angústia...

Labirinto sem luz, sem ar, sem fio...

Que dor, que drama torvo de agonias

Não vai naquelas almas!... Dor sombria

De ver quebrado aquele amor tão santo,

De lembrar que o passado está passado...,

Que a esperança morreu, que surge a morte!...

Tanta ilusão!... tanta carícia meiga!...

Tanto castelo de ventura feito

À beira do riacho, ou na campanha!...

Tanto êxtase inocente de amorosos!...

Tanto beijo na porta da choupana,

Quando a lua invejosa no infinito

Com uma bênção de luz sagrava os noivos!...

Não mais! não mais! O raio, quando esgalha

O ipê secular, atira ao longe

Flores, que há pouco se beijavam n’hástea,

Que unidas nascem, juntas viver pensam,

E que jamais na terra hão de encontrar-se!

Passou-se muito tempo... Rio abaixo

A canoa corria ao tom das vagas.

De repente ele ergueu-se hirto, severo,

- O olhar em fogo, o riso convulsivo -

Em golfadas lançando a voz do peito!...

“Maria! – diz-me tudo... Fala! Fala

Enquanto eu posso ouvir... Criança, escuta!

Não vês o rio?... é negro!... é um leito fundo...

A correnteza, estrepitando, arrasta

Uma palmeira, quanto mais um homem!...

Pois bem! Do seio túrgido do abismo

Há de romper a maldição do morto;

Depois o meu cadáver negro, lívido,

Irá seguindo a esteira da canoa

Pedir-te inda que fales, desgraçada,

Que ao morto digas o que ao vivo ocultas!...”

Era tremenda aquela dor selvagem,

Que rebentava enfim, partindo os diques

Na fúria desmedida!...

Em meio às ondas

Ia Lucas rolar...

Um grito fraco,

Uma trêmula mão susteve o escravo...

E a pálida criança, desvairada,

Aos pés caiu-lhe a desfazer-se em pranto.

Ela encostou-se ao peito do selvagem

- Como a violeta, as faces escondendo

Sob a chuva noturna dos cabelos -!

Lenta e sombria após contou destarte

A treda história desse tredo crime!...

Na Fonte

I

“Era hoje ao meio-dia.

Nem uma brisa macia

Pela savana bravia

Arrufava os ervaçais...

Um sol de fogo abrasava;

Tudo a sombra procurava;

Só a cigarra cantava

No tronco dos coqueirais.

II

“Eu cobri-me da mantilha,

Na cabeça pus a bilha,

Tomei do deserto a trilha,

Que lá na fonte vai dar.

Cansada cheguei na mata:

Ali, na sombra, a cascata

As alvas tranças desata

Como ua moça a brincar.

III

“Era tão densa a espessura!

Corria a brisa tão pura!

Reinava tanta frescura,

Que eu quis me banhar ali.

Olhei em roda... Era quedo

O mato, o campo, o rochedo...

Só nas galhas do arvoredo

Saltava alegre o sagüi.

IV

“Junto às águas cristalinas

Despi-me louca, traquinas,

E as roupas alvas e finas

Atirei sobre os cipós.

Depois mirei-me inocente,

E ri vaidosa... e contente...

Mas voltei-me de repente...

Como que ouvira uma voz!

V

“Quem foi que passou ligeiro,

Mexendo ali no ingazeiro,

E se embrenhou no balceiro,

Rachando as folhas do chão?...

Quem foi? Da mata sombria

Uma vermelha cutia

Saltou tímida e bravia,

Em procura do sertão.

VI

“Chamei-me então de criança;

A meus pés a onda mansa

Por entre os juncos s’entrança

Como uma cobra a fugir!

Mergulho o pé docemente/

Com o frio fujo à corrente...

De um salto após de repente

Fui dentro d’água cair.

VII

“Quando o sol queima as estradas,

E nas várzeas abrasadas

Do vento as quentes lufadas

Erguem novelos de pó,

Como é doce em meio às canas,

Sob um teto de lianas,

Das ondas nas espadanas

Banhar-se despida e só!...

VIII

“Rugitavam os palmares...

Em torno dos nenufares

Zumbiam pejando os ares

Mil insetos de rubim...

Eu naquele leito brando

Rolava alegre cantando...

Súbito... um ramo estalando

Salta um homem junto a mim!”



Nos Campos

“Fugi desvairada!

Na moita intrincada,

Rasgando uma estrada,

Fugaz me embrenhei.

Apenas vestindo

Meus negros cabelos,

E os seios cobrindo

Com os trêmulos dedos,

Ligeira voei!

“Saltei as torrentes.

Trepei dos rochedos

Aos cimos ardentes,

Nos ínvios caminhos,

Cobertos de espinhos,

Meus passos mesquinhos

Com sangue marquei!

..........................................

“Avante! corramos!

Corramos ainda!...

Da selva nos ramos

A sombra é infinda.

A mata possante

Ao filho arquejante

Não nega um abrigo...

Corramos ainda!

Corramos! avante!

“Debalde! A floresta

- Madrasta impiedosa -

A pobre chorosa

Não quis abrigar!

“Pois bem! Ao deserto!

“De novo, é loucura!

Seguindo meus traços

Escuto seus passos

Mais perto! mais perto!

Já queima-me os ombros

Seu hálito ardente.

Já vejo-lhe a sombra

Na úmida alfombra...

Qual negra serpente,

Que vai de repente

Na presa saltar!...

..........................................

Na douda

Corrida

Vencida,

Perdida,

Quem me há de salvar”?

No Monte

“Parei... Volvi em torno os olhos assombrados...

Ninguém! A solidão pejava os descampados...

Restava inda um segundo... um só p’ra me salvar;

Então reuni as forças, ao céu ergui o olhar...

E do peito arranquei um pavoroso grito,

Que foi bater em cheio às portas do infinito!

Ninguém! Ninguém me acode... Ai! só de monte em monte

Meu grito ouvi morrer na extrema do horizonte!...

Depois a solidão ainda mais calada

Na mortalha envolveu a serra descampada!...

“Ai! que pode fazer a rola triste

Se o gavião nas garras a espedaça?

Ai! que faz o cabrito do deserto,

Quando a jibóia no potente aperto

Em roscas férreas o seu corpo enlaça?

“Fazem como eu?... Resistem, batem, lutam,

E finalmente expiram de tortura.

Ou, se escapam trementes, arquejantes,

Vão, lambendo as feridas gotejantes,

Morrer à sombra da floresta escura!...

“E agora está concluída

Minha história desgraçada.

Quando caí – era virgem!

Quando ergui-me – desonrada!”

Sangue de Africano

Aqui sombrio, fero, delirante

Lucas ergueu-se como o tigre bravo...

Era a estátua terrível da vingança...

O selvagem surgiu... sumiu-se o escravo.

Crispado o braço, no punhal segura!

Do olhar sangrentos raios lhe ressaltam,

Qual das janelas de um palácio em chamas

As labaredas, irrompendo, saltam.

Com o gesto bravo, sacudido, fero,

A destra ameaçando a imensidade...

Era um bronze de Aquiles furioso

Concentrando no punho a tempestade!

No peito arcado o coração sacode

O sangue, que da raça não desmente,

Sangue queimado pelo sol da Líbia,

Que ora referve no Equador ardente.

Amante

“Basta, criança! Não soluces tanto...

Enxuga os olhos, meu amor, enxuga!

Que culpa tem a clícia descaída

Se abelha envenenada o mel lhe suga?

“Basta! Esta faca já contou mil gotas

De lágrimas de dor nos teus olhares.

Sorri, Maria! Ela jurou pagar-tas

No sangue dele em gotas aos milhares.

“Por que volves os olhos desvairados?

Por que tremes assim, frágil criança?

Est’alma é como o braço, o braço é ferro,

E o ferro sabe o trilho da vingança.

“Se a justiça da terra te abandona,

Se a justiça do céu de ti se esquece,

A justiça do escravo está na força...

E quem tem um punhal nada carece!...

“Vamos! Acaba a história... Lança a presa...

Não vês meu coração, que sente fome?

Amanhã chorarás; mas de alegria!

Hoje é preciso dizer - seu nome!”

Anjo

“Ai! que vale a vingança, pobre amigo,

Se na vingança a honra não se lava?...

O sangue é rubro, a virgindade é branca –

O sangue aumenta da vergonha a bava.

“Se nós fomos somente desgraçados,

Para que miseráveis nos fazermos?

Deportados da terra assim perdemos

De além da campa as regiões sem termos...

“Ai! não manches no crime a tua vida,

Meu irmão, meu amigo, meu esposo!...

Seria negro o amor de uma perdida

Nos braços a sorrir de um criminoso!...”

Desespero

“Crime! Pois será crime se a jibóia

Morde salvando a planta, que a esmagara?

Pois será crime se o jaguar nos dentes

Quebra do índio a pérfida taquara?

“E nós que somos, pois? Homens? – Loucura!

Família, leis e Deus lhes coube em sorte.

A família no lar, a lei no mundo...

E os anjos do Senhor depois da morte.

“Três leitos, que sucedem-se macios,

Onde rolam na santa ociosidade...

O pai o embala... a lei o acaricia...

O padre lhe abre a porta à eternidade.

“Sim! Nós somos reptis... Qu’importa a espécie?

- A lesma é vil, - o cascavel é bravo.

E vens falar de crimes ao cativo?

Então não sabes o que é ser escravo!...

“Ser escravo - é nascer no alcoice escuro

Dos seios infamados da vendida...

- Filho da perdição no berço impuro

Sem leite para a boca ressequida...

“É mais tarde, nas sombras do futuro,

Não descobrir estrela foragida...

É ver – viajante morto de cansaço –

A terra – sem amor!... sem Deus – o espaço!

“Ser escravo – é, dos homens repelido,

Ser também repelido pela fera;

Sendo dos dois irmãos pasto querido,

Que o tigre come e o homem dilacera...

– É do lodo no lodo sacudido

Ver que aqui ou além nada o espera,

Que em cada leito novo há mancha nova...

No berço... após o toro... após a cova!...

“Crime! Quem lhe falou, pobre Maria,

Desta palavra estúpida?... Descansa!

Foram eles talvez?!... É zombaria...

Escarnecem de ti, pobre criança!

Pois não vês que morremos todo dia,

Debaixo do chicote, que não cansa?

Enquanto do assassino a fronte calma

Não revela um remorso de sua alma?

“Não! Tudo isto é mentira! O que é verdade

É que os infames tudo me roubaram...

Esperança, trabalho, liberdade

Entreguei-lhes em vão... não se fartaram.

Quiseram mais... Fatal voracidade!

Nos dentes meu amor espedaçaram...

Maria! Última estrela de minh’alma!

O que é feito de ti, virgem sem palma?

“Pomba – em teu ninho as serpes te morderam.

Folha – rolaste no paul sombrio.

Palmeira – as ventanias te romperam.

Corça – afogaram-te as caudais do rio.

Pobre flor – no teu cálice beberam,

Deixando-o depois triste e vazio...

– E tu, irmã! e mãe! e amante minha!

Queres que eu guarde a faca na bainha!

“Ó minha mãe! Ó mártir africana,

Que morreste de dor no cativeiro!

Ai! sem quebrar aquela jura insana,

Que jurei no teu leito derradeiro,

No sangue desta raça ímpia, tirana,

Teu filho vai vingar um povo inteiro!

Vamos, Maria! Cumpra-se o destino...

Dize! Dize-me o nome do assassino!...”

“Virgem das Dores,

Vem dar-me alento...

Neste momento

De agro sofrer!

Para ocultar-lhe

Busquei a morte...

Mas vence a sorte,

Deve assim ser.

....................................................................

“Pois que seja! Debalde pedi-te,

Ai! debalde a teus pés me rojei...

Porém antes escuta esta história...

Depois dela... O seu nome direi!”

História de um Crime

“Fazem hoje muitos anos

Que de uma escura senzala

Na estreita e lodosa sala

Arquejava u’a mulher.

Lá fora por entre as urzes

O vendaval s’estorcia...

E aquela triste agonia

Vinha mais triste fazer.

“A pobre sofria muito.

Do peito cansado, exangue,

Às vezes rompia o sangue

E lhe inundava os lençóis.

Então, como quem se agarra

Às últimas esperanças,

Duas pávidas crianças

Ela olhava... e ria após.

“Que olhar! que olhar tão extenso!

Que olhar tão triste e profundo!

Vinha já de um outro mundo,

Vinha talvez lá do céu.

Era o raio derradeiro

Que a lua, quando se apaga,

Manda por cima da vaga

Da espuma por entre o véu.

“Ainda me lembro agora

Daquela noite sombria,

Em que u’a mulher morria

Sem rezas, sem oração!...

Por padre – duas crianças...

E apenas por sentinela

Do Cristo a face amarela

No meio da escuridão.

“Às vezes naquela fronte

Como que a morte pousava

E da agonia aljofrava

O derradeiro suor...

Depois acordava a mártir,

Como quem tem um segredo...

Ouvia em torno com medo,

Com susto olhava em redor.

“Enfim, quando noite velha

Pesava sobre a mansarda,

E somente o cão de guarda

Ladrava aos ermos sem fim,

Ela, nos braços sangrentos

As crianças apertando,

Num tom meigo, triste e brando

Pôs-se a falar-lhes assim:

Último Abraço

“Filho, adeus! Já sinto a morte,

Que me esfria o coração.

Vem cá... Dá-me tua mão...

Bem vês que nem mesmo tu

Podes dar-lhe novo alento!...

Filho, é o último momento...

A morte – a separação!

Ao desamparo, sem ninho,

Ficas, pobre passarinho,

Neste deserto profundo,

Pequeno, cativo e nu!...

“Que sina, meu Deus! que sina

Foi a minha neste mundo!

Presa ao céu – pelo desejo,

Presa à terra – pelo amor!...

Que importa! é tua vontade?

Pois seja feita, Senhor!

“Pequei!... foi grande o meu crime,

Mas é maior o castigo...

Ai! não bastava a amargura

Das noites ao desabrigo;

De espedaçarem-me as carnes

O tronco, o açoite, a tortura,

De tudo quanto sofri.

Era preciso mais dores,

Inda maior sacrifício...

Filho! bem vês meu suplício...

Vão separar-me de ti!

“Chega-te perto... mais perto;

Nas trevas procura ver-te

Meu olhar, que treme incerto,

Perturbado, vacilante...

Deixa em meus braços prender-te

P’ra não morrer neste instante;

Inda tenho que fazer-te

Uma triste confissão...

Vou revelar-te um segredo

Tão negro, que tenho medo

De não ter o teu perdão!...

Mas não!

Quando um padre nos perdoa,

Quando Deus tem piedade

De um filho no coração

Uma mãe não bate à toa.

Mãe Penitente

Ouve-me, pois!... Eu fui uma perdida;

Foi este o meu destino, a minha sorte...

Por esse crime é que hoje perco a vida,

Mas dele em breve há de salvar-me a morte!

“E minh’alma, bem vês, que não se irrita,

Antes bendiz estes mandões ferozes.

Eu seria talvez por ti maldita,

Filho! sem o batismo dos algozes!

“Porque eu pequei... e do pecado escuro

Tu foste o fruto cândido, inocente,

– Borboleta, que sai do – lodo impuro...

– Rosa, que sai de – pútrida semente!

“Filho! Bem vês... fiz o maior dos crimes:

– Criei um ente para a dor e a fome!

Do teu berço escrevi nos brancos vimes

O nome de bastardo – impuro nome.

“Por isso agora tua mãe te implora

E a teus pés de joelhos se debruça.

Perdoa à triste – que de angústia chora,

Perdoa à mártir – que de dor soluça!

O Segredo

“Agora vou dizer-te por que morro;

Mas hás de jurar primeiro

Que jamais tuas mãos inocentes

Ferirão meu algoz derradeiro...

Meu filho, eu fui a vítima

Da raiva e do ciúme.

Matou-me como um tigre carniceiro,

Bem vês,

Uma branca mulher, que em si resume

Do tigre – a malvadez,

Do cascavel – o rancor!...

Deixo-te, pois...

– Um grito de vingança?

– Não, pobre criança?...

Um crime a perdoar... o que é melhor!...

“Depois, teve razão... Esta mulher

É tua e minha senhora!...



...........................................................................

“Lucas, silêncio! que por ela implora

Teu pai... e teu irmão!...

“Teu irmão, que é seu filho... (ó mágoa e dor!)

“Teu pai – que é seu marido ... e teu senhor!...

“Juras não me vingar? – Ó mãe, eu juro

Por ti, pelos beijos teus!

“– Obrigada! Agora... agora

Já nada mais me demora...

Deus! – recebe a pecadora!

Filho! – recebe este adeus!”

Quando, rompendo as barras do oriente,

A estrela da manhã mais desmaiava,

E o vento da floresta ao céu levava

O canto jovial do bem-te-vi;

Na casinha de palha uma criança,

Da defunta abraçando o corpo frio,

Murmurava chorando em desvario:

– Eu não me vingo, ó mãe... juro por ti!...”

_________

Maria calou-se... Na fronte do Escravo

Suor de agonia gelado passou;

Com riso convulso murmura: “Que importa

Se o filho da escrava na campa jurou?!...

“Que tem o passado com o crime de agora?

Que tem a vingança, que tem com o perdão?”

E como arrancando do crânio uma idéia

Na fronte corria-lhe a gélida mão...

“Esquece o passado! Que morra no olvido...

Ou antes relembra-o cruento, feroz!

Legenda de lodo, de horror e de crimes

E gritos de vítima e risos de algoz!

“No frio da cova que jaz na esplanada,

- Vingança – murmuram os ossos dos meus!”

“Não ouves um canto, que passa nos ares?

- Perdoa! – respondem as almas nos céus!”

- “São longos gemidos do seio materno

Lembrando essa noite de horror e traição!”

- “É o flébil suspiro do vento, que outrora

Bebera nos lábios da morte o perdão!...”

E descaiu profundo

Em longo meditar...

Após sombrio e fero

Viram-no murmurar:

“Mãe! na região longínqua

Onde tua alma vive,

Sabes que eu nunca tive

Um pensamento vil.

Sabes que esta alma livre

Por ti curvou-se escrava:

E devorou a bava...

E tigre – foi reptil!

“Nem um tremor correra-me

A face fustigada!

Beijei a mão armada

Com o ferro que a feriu...

Filho, de um pai misérrimo

Fui o fiel rafeiro...

Caim, irmão traiçoeiro!

Feriste... e Abel sorriu!

“De tanto horror o cúmulo,

Ó mãe, alma celeste,

Se perdoar quiseste,

Eu perdoei também.

Santificaste os míseros;

Curvei-me reverente

A eles tão-somente,

Somente... a mais ninguém!

“Ninguém! Que a nada humilho-me

Na terra, nem no espaço...

Pode ferir meu braço...

- “Lucas! não pode, não!

Mísero! A mão que abrira

De tua mãe a cova...

O golpe hoje renova!...

Mata-me!... É teu irmão!...”

..................................................................

Crepúsculo Sertanejo

A tarde morria! Nas águas barrentas

As sombras das margens deitavam-se longas;

Na esguia atalaia das árvores secas

Ouvia-se um triste chorar de arapongas.

A tarde morria! Dos ramos, das lascas,

Das pedras, do líquen, das heras, dos cardos,

As trevas rasteiras com o ventre por terra

Saíam, quais negros, cruéis leopardos.

A tarde morria! Mais funda nas águas

Lavava-se a galha do escuro ingazeiro...

Ao fresco arrepio dos ventos cortantes

Em músico estalo rangia o coqueiro.

Sussurro profundo! Marulho gigante!

Talvez um – silêncio!... Talvez uma – orquesta...

Da folha, do cálix, das asas, do inseto...

Do átomo – à estrela... do verme – à floresta!...

As garças metiam o bico vermelho

Por baixo das asas, - da brisa ao açoite –;

E a terra na vaga de azul do infinito

Cobria a cabeça co’as penas da noite!

Somente por vezes, dos jungles das bordas

Dos golfos enormes, daquela paragem,

Erguia a cabeça, surpreso, inquieto,

Coberto de limos – um touro selvagem.

Então as marrecas, em torno boiando,

O vôo encurvavam medrosas, à toa...

E o tímido bando pedindo outras praias

Passava gritando por sobre a canoa!...

.....................................................................

O Bandolim da Desgraça

Quando de amor a Americana douda

A moda tange na febril viola,

E a mão febrenta sobre a corda fina

Nervosa, ardente, sacudida rola.

A gusla geme, s’estorcendo em ânsias,

Rompem gemidos do instrumento em pranto...

Choro indizível... comprimir de peitos...

Queixas, soluços... desvairado canto!

E mais dorida a melodia arqueja!

E mais nervosa corre a mão nas cordas!...

Ai! tem piedade das crianças louras

Que soluçando no instrumento acordas!...

“Ai! tem piedade dos meus seios trêmulos...”

Diz estalando o bandolim queixoso

... E a mão palpita-lhe apertando as fibras...

E fere, e fere em dedilhar nervoso!...

Sobre o regaço da mulher trigueira,

Doida, cruel, a execução delira!...

Então - co’as unhas cor-de-rosa, a moça,

Quebrando as cordas, o instrumento atira!...

...........................................................................

Assim, Desgraça, quando tu, maldita!

As cordas d’alma delirante vibras...

Como os teus dedos espedaçam rijos

Uma por uma do infeliz as fibras!

- Basta –, murmura esse instrumento vivo.

- Basta -, murmura o coração rangendo.

E tu, no entanto, num rasgar de artérias,

Feres lasciva em dedilhar tremendo.

Crença, esperança, mocidade e glória,

Aos teus arpejos, - gemebundas morrem!...

Resta uma corda... - a dos amores puros -...

E mais ardentes os teus dedos correm!...

E quando farta a cortesã cansada

A pobre gusla no tapete atira,

Que resta?... - Uma alma – que não tem mais vida!

Olhos – sem pranto! Desmontada – lira!!!

A Canoa Fantástica

Pelas sombras temerosas

Onde vai esta canoa?

Vai tripulada ou perdida?

Vai ao certo ou vai à toa?

Semelha um tronco gigante

De palmeira, que s’escoa...

No dorso da correnteza,

Como bóia esta canoa!...

Mas não branqueja-lhe a vela!

N’água o remo não ressoa!

Serão fantasmas que descem

Na solitária canoa?

Que vulto é este sombrio,

Gelado, imóvel na proa?

Dir-se-ia o gênio das sombras

Do inferno sobre a canoa!...

Foi visão? Pobre criança!

À luz, que dos astros côa,

É Teu, Maria, o cadáver,

Que desce nesta canoa?

Caída, pálida, branca!

Não há quem dela se doa?!...

Vão-lhe os cabelos a rastos

Pela esteira da canoa!...

E as flores róseas dos golfos,

- Pobres flores da lagoa,

Enrolam-se em seus cabelos

E vão seguindo a canoa!...

.....................................................

O São Francisco

Longe, bem longe, dos cantões bravios,

Abrindo em alas os barrancos fundos;

Dourando o colo aos perenais estios,

Que o sol atira nos modernos mundos;

Por entre a grita dos ferais gentios,

Que acampam sob os palmeirais profundos;

Do São Francisco a soberana vaga

Léguas e léguas triunfante alaga!

Antemanhã, sob o sendal da bruma,

Ele vagia na vertente ainda,

- Linfa amorosa – co’a nitente espuma

Orlava o seio da Mineira linda;

Ao meio-dia, quando o solo fuma

Ao bafo morto de u’a calma infinda,

Viram-no aos beijos, delamber demente

As rijas formas da cabocla ardente.

Insano amante! Não lhe mata o fogo

O deleite da indígena lasciva...

Vem – à busca talvez de desafogo

Bater à porta da Baiana altiva.

Nas verdes canas o gemente rogo

Ouve-lhe à tarde a tabaroa esquiva...

E talvez por magia... à luz da lua

Mole a criança na caudal flutua.

Rio soberbo! Tuas águas turvas

Por isso descem lentas, peregrinas...

Adormeces ao pé das palmas curvas

Ao músico chorar das casuarinas!

Os poldros soltos – retesando as curvas, -

Ao galope agitando as longas crinas,

Rasgam alegres – relinchando aos ventos –

De tua vaga os turbilhões barrentos.

E tu desces, ó Nilo brasileiro,

As largas ipueiras alagando,

E das aves o coro alvissareiro

Vai nas balças teu hino modilhando!

Como pontes aéreas – do coqueiro

Os cipós escarlates se atirando,

De grinaldas em flor tecendo a arcada

São arcos triunfais de tua estrada!...

A Cachoeira

Mas súbito da noite no arrepio

Um mugido soturno rompe as trevas...

Titubeantes – no álveo do rio –

Tremem as lapas dos titães coevas!...

Que grito é este sepulcral, bravio,

Que espanta as sombras ululantes, sevas?...

É o brado atroador da catadupa

Do penhasco batendo na garupa!...

Quando no lodo fértil das paragens

Onde o Paraguaçu rola profundo,

O vermelho novilho nas pastagens

Come os caniços do torrão fecundo;

Inquieto ele aspira nas bafagens

Da negra suc’ruiúba o cheiro imundo...

Mas já tarde... silvando o monstro voa...

E o novilho preado os ares troa!

Então doido de dor, sânie babando,

Co’a serpente no dorso parte o touro...

Aos bramidos os vales vão clamando,

Fogem as aves em sentido choro...

Mas súbito ela às águas o arrastando

Contrai-se para o negro sorvedouro...

E enrolando-lhe o corpo quente, exangue,

Quebra-a nas roscas, donde jorra o sangue.

Assim dir-se-ia que a caudal gigante

- Larga sucuruiúba do infinito –

Co’as escamas das ondas coruscante

Ferrara o negro touro de granito!...

Hórrido, insano, triste, lacerante,

Sobe do abismo um pavoroso grito...

E medonha a suar a rocha brava

As pontas negras na serpente crava.

Dilacerado o rio espadanando

Chama as águas da extrema do deserto...

Atropela-se, empina, espuma o bando...

E em massa rui no precipício aberto...

Das grutas nas cavernas estourando

O coro dos trovões travam concerto...

E ao vê-lo as águias tontas, eriçadas

Caem de horror no abismo estateladas...

A cachoeira! Paulo Afonso! O abismo!

A briga colossal dos elementos!

As garras do Centauro em paroxismo

Raspando os flancos dos parcéis sangrentos.

Relutantes na dor do cataclismo

Os braços do gigante suarentos

Agüentando a ranger (espanto! assombro!)

O rio inteiro que lhe cai do ombro.

Um Raio de Luar

Alta noite ele ergueu-se. Hirto, solene.

Pegou na mão da moça. Olhou-a fito...

Que fundo olhar!

Ela estava gelada, como a garça

Que a tormenta ensopou longe do ninho,

No largo mar.

Tomou-a no regaço... assim no manto

Apanha a mãe a criancinha loura,

Tenra a dormir.

Apartou-lhe os cabelos sobre a testa...

Pálida e fria... Era talvez a morte...

Mas a sorrir.

Pendeu-lhe sobre os lábios. Como treme

No sono asa de pombo, assim tremia-lhe

O ressonar.

E como o beija-flor dentro do ovo,

Ia-lhe o coração no níveo seio

A titilar.

Morta não era! Enquanto um rir convulso

Contraíra as feições do homem silente

- Riso fatal.

Dir-se-ia que antes a quisera rija,

Inteiriçada pela mão da noite

Hirta, glacial!

Um momento de bruços sobre o abismo,

Ele, embalando-a, sobre o rio negro

Mais s’inclinou...

Nesse instante o luar bateu-lhe em cheio,

E um riso à flor dos lábios da criança

A flux boiou!

Qual o murzelo do penhasco à borda

Empina-se e cravando as ferraduras

Morde o escarcéu;

Um calafrio percorreu-lhe os músculos...

O vulto recuou!... A noite em meio

Ia no céu!

Desperta para Morrer

“Acorda!”

“Quem me chama?”

“Escuta!”

“Escuto...”

- “Nada ouviste?”

- “Inda não...”

- “É porque o vento

Escasseou”.

- “Ouço agora... da noite na calada

Uma voz que ressona cava e funda...

E após cansou!”

- “Sabes que voz é esta?”

- “Não! Semelha

Do agonizante o derradeiro engasgo,

Rouco estertor...”

E calados ficaram, mudos, quedos,

Mãos contraídas, bocas sem alento...

Hora de horror!...

Loucura Divina

- “Sabes que voz é esta?”

Ela cismava!...

- “Sabes, Maria?

- “É uma canção de amores.

Que além gemeu!”

- “É o abismo, criança!...”

A moça rindo

Enlaçou-lhe o pescoço:

- “Oh! não! não mintas!

Bem sei que é o céu!”

- “Doida! Doida! É a voragem que nos chama!...”

- “Eu ouço a Liberdade!”

- “É a morte, infante!

- “Erraste. É a salvação!”

- “Negro fantasma é quem me embala o esquife!”

- “Loucura! É tua Mãe... O esquife é um berço,

Que bóia n’amplidão!...”

- “Não vês os panos d’água como alvejam

Nos penedos?... Que gélido sudário

O rio nos talhou!”

- “Veste-me o cetim branco do noivado...

Roupas alvas de prata... albentes dobras...

Veste-me!... Eu aqui estou.”

- Já na proa espadana, salta a espuma...”

- São as flores gentis da laranjeira

Que o pego vem nos dar...

Oh névoa! Eu amo teu sendal de gaze!

Abram-se as ondas como virgens louras,

Para a Esposa passar!...

As estrelas palpitam! – São as tochas!

Os rochedos murmuram!... – São os monges!

Reza um órgão nos céus!

Que incenso! – Os rolos que do abismo voam!

Que turíbulo enorme – Paulo Afonso!

Que sacerdote! – Deus...”

...............................................................................

À Beira do Abismo

e do Infinito

A celeste Africana, a Virgem-Noite

Cobria as faces... Gota a gota os astros

Caíam-lhe das mãos no peito seu...

... Um beijo infindo suspirou nos ares...

.............................................................................

A canoa rolava!... Abriu-se a um tempo

O precipício!... e o céu!...

LÁGRIMAS DA VIDA - Álvares de Azevedo

LÁGRIMAS DA VIDA - Álvares de Azevedo



On pouvait à vingt ans le clouer dans la bière
— Cadavre sans illusions...
THÉOPH. GAUTIER

Je me suis assis en blasphémant sur le bord
du chemin. Et je me suis dit: — je n’irai pas plus
loin. Mais je suis bien jeune encore pour mourir,
n'est-ce pas, Jane?
GEORGE SAND, Aldo

Se tu souberas que lembrança amarga
Que pensamento desflorou meus dias,
Oh! tu não creras meu sorrir leviano,
Nem minhas insensatas alegrias!

Quando junto de ti eu sinto, às vezes,
Em doce enleio desvairar-me o siso,
Nos meus olhos incertos sinto lágrimas...
Mas da lágrima em troco eu temo um riso!

O meu peito era um templo — ergui nas aras
Tua imagem que a sombra perfumava...
Mas ah! emurcheceste as minhas flores!
Apagaste a ilusão que o aviventava!

E por te amar, por teu desdém, perdi-me...
Tresnoitei-me nas orgias macilento,
Brindei blasfemo ao vício e da minh’alma
Tentei me suicidar no esquecimento!

Como um corcel abate-se na sombra,
A minha crença agoniza e desespera...
O peito e lira se estalaram juntos...
E morro sem ter tido primavera!

Como o perfume de uma flor aberta
Da manhã entre as nuvens se mistura,
A minh’alma podia em teus amores
Como um anjo de Deus sonhar ventura!

Não peço o teu amor... eu quero apenas
A flor que beijas para a ter no seio...
E teus cabelos respirar medroso...
E a teus joelhos suspirar d’enleio!

E quando eu durmo... e o coração ainda
Procura na ilusão tua lembrança,
Anjo da vida passa nos meus sonhos
E meus lábios orvalha d’esperança!

LÉLIA - Álvares de Azevedo

LÉLIA - Álvares de Azevedo



Passou talvez ao alvejar da lua,
Como incerta visão na praia fria...
Mas o vento do mar não escutou-lhe
Uma voz a seu Deus!...ela não cria!

Uma noite, aos murmúrios do piano
Pálida misturou um canto aéreo...
Parecia de amor tremer-lhe a vida
Revelando nos lábios um mistério!

Porém, quando expirou a voz nos lábios,
Ergueu sem pranto a fronte descorada,
Pousou a fria mão no seio imóvel,
Sentou-se no divã... sempre gelada!

Passou talvez do cemitério à sombra
Mas nunca numa cruz deixou seu ramo,
Ninguém se lembra de lhe ter ouvido
Numa febre de amor dizer: "eu amo!"

Não chora por ninguém... e quando, à noite,
Lhe beija o sono as pálpebras sombrias
Não procura seu anjo à cabeceira
E não tem orações, mas ironias!

Nunca na terra uma alma de poeta,
Chorosa, palpitante e gemebunda
Achou nessa mulher um hino d’alma
E uma flor para a fronte moribunda.

Lira sem cordas não vibrou d’enlevo,
As notas puras da paixão ignora,
Não teve nunca n’alma adormecida
O fogo que inebria e que devora!

Descrê. Derrama fel em cada riso,
Alma estéril não sonha uma utopia...
Anjo maldito salpicou veneno
Nos lábios que tressuam de ironia.

É formosa contudo. Há dessa imagem
No silêncio da estátua alabastrina
Como um anjo perdido que ressumbra
Nos olhos negros da mulher divina.

Há nesse ardente olhar que gela e vibra,
Na voz que faz tremer e que apaixona
O gênio de Satã que transverbera,
E o langor pensativo da Madona!

É formosa, meu Deus! Desde que a vi
Na minh’alma suspira a sombra dela...
E sinto que podia nesta vida
Num seu lânguido olhar morrer por ela.

LEMBRANÇA DOS QUINZE ANOS - Álvares de Azevedo

LEMBRANÇA DOS QUINZE ANOS - Álvares de Azevedo



Et pourtant sans plaisir je dépense la vie;
Et souvent quand, pour moi, les heures de la nuit
S’écoulent sans sommeil, sans songes, sans bruit,
Il passe dans mon coeur de brillantes pensées,
D’invincibles désirs, de fougues insensées!
CH. DOVALLE

... Heureux qui, dès les premiers ans,
A senti de son sang, dans ses veines stagnantes,
Couler d’un pas égal les ondes languissantes;
Dont les désirs jamais n’ont troublé la raison;
Pour qui les yeux n’ont point de suave poison.
ANDRÉ CHÉNIER

Nos meus quinze anos eu sofria tanto!
Agora enfim meu padecer descansa...
Minh’alma emudeceu, na noite dela
Adormeceu a pálida esperança!

Já não sinto ambições e se esvaíram
As vagas formas, a visão confusa
De meus dias de amor, nem doces voltam
Os sons aéreos da divina Musa!

Porventura é melhor as brandas fibras
Embotadas sentir nessa dormência...
E viver esta vida... e na modorra
Repousar-se na sombra da existência!

E que noites de sôfrego desejo!
Que pressentir de uma volúpia ardente!
Que noites de esperança e desespero!
E que fogo no sangue incandescente!

Minh’alma juvenil era uma lira
Que ao menor bafejar estremecia...
A triste decepção rompeu-lhe as cordas...
Só vibra num prelúdio d’agonia!

Quanto, quanto sonhei! como velava
Cheio de febre, ansioso de ternuras!
Como era virgem o meu lábio ardente!
A alma tão santa! as emoções tão puras!

Como o peito sedento palpitava
Ao roçar de um vestido, à voz divina
De uma pálida virgem! ao murmúrio
De uns passos de mulher pela campina!

E como t’esperei, anjo dos sonhos,
Ideal de mulher que me sorrias,
E me beijando nesta fronte pálida
A um mundo belo de ilusões me erguias!

O meu peito era um eco de murmúrios...
De delírio vivi como os insanos!
Nos meus quinze anos eu sofria tanto!
Ardi ao fogo dos primeiros anos!

Agora vivo no deserto d’alma...
Um mundo de saudade ali dormita...
Não o quero acordar... oh! não ressurjam
Aquelas sombras na minh’alma aflita!

Mas por que volves os teus olhos negros
Tão langues sobre mim? Ilná, suspiras?
Por que derramas tanto amor nos olhos?
Eu não posso te amar e tu deliras.

Também a aurora tem neblina e sombras,
E há vozes que emudece a desventura,
Há flores em botão que se desfolham,
E a alma também morre prematura.

Repousa no meu peito o meu passado,
Minh’alma adormeceu por um momento...
Sou a flor sem perfume em sol d’inverno...
Uma lousa que encerra? — o esquecimento!...

Não me fales de amor... um teu suspiro
Tantos sonhos no peito me desperta!...
Sinto-me reviver e como outrora
Beijo tremendo uma visão incerta...

Ah! quando as belas esperanças murcham
E o gênio dorme e a vida desencanta,
D’almas estéreis a ironia amarga
E a morte sobre os sonhos se levanta...

Embora fundo o sono do descrido
E o silêncio do peito e seu retiro...
Inda pode inflamar muitos amores
O sussurro de um lânguido suspiro!

Livro de Mágoas - Florbela Espanca

Livro de Mágoas - Florbela Espanca



ESTE LIVRO ...

Este livro é de mágoas. Desgraçados
Que no mundo passais, chorai ao lê-lo!
Somente a vossa dor de Torturados
Pode, talvez, senti-lo ... e compreendê-lo.

Este livro é para vós. Abençoados
Os que o sentirem , sem ser bom nem belo!
Bíblia de tristes ... Ó Desventurados,
Que a vossa imensa dor se acalme ao vê-lo!

Livro de Mágoas ... Dores ... Ansiedades!
Livro de Sombras ... Névoas e Saudades!
Vai pelo mundo ... (Trouxe-o no meu seio ...)

Irmãos na Dor, os olhos rasos de água,
Chorai comigo a minha imensa mágoa,
Lendo o meu livro só de mágoas cheio! ...



VAIDADE

Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!

Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

Sonho que sou Alguém cá neste mundo ...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a Terra anda curvada!

E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho ... E não sou nada! ...



EU

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada ... a dolorida ...

Sombra de névoa ténue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida! ...

Sou aquela que passa e ninguém vê ...
Sou a que chamam triste sem o ser ...
Sou a que chora sem saber porquê ...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou!



CASTELÃ DA TRISTEZA

Altiva e couraçada de desdém,
Vivo sozinha em meu castelo: a Dor!
Passa por ele a luz de todo o amor ...
E nunca em meu castelo entrou alguém!

Castelã da Tristeza, vês? ... A quem? ...
– E o meu olhar é interrogador –
Perscruto, ao longe, as sombras do sol-pôr ...
Chora o silêncio ... nada ... ninguém vem ...

Castelã da Tristeza, porque choras
Lendo, toda de branco, um livro de horas,
À sombra rendilhada dos vitrais? ...

À noite, debruçada, plas ameias,
Porque rezas baixinho? ... Porque anseias? ...
Que sonho afagam tuas mãos reais? ...



TORTURA

Tirar dentro do peito a Emoção,
A lúcida Verdade, o Sentimento!
– E ser, depois de vir do coração,
Um punhado de cinza esparso ao vento! ...

Sonhar um verso de alto pensamento,
E puro como um ritmo de oração!
– E ser, depois de vir do coração,
O pó, o nada, o sonho dum momento ...

São assim ocos, rudes, os meus versos:
Rimas perdidas, vendavais dispersos,
Com que eu iludo os outros, com que minto!

Quem me dera encontrar o verso puro,
O verso altivo e forte, estranho e duro,
Que dissesse, a chorar, isto que sinto!!



LÁGRIMAS OCULTAS

Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era querida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida ...

E a minha triste boca dolorida,
Que dantes tinha o rir das primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!

E fico, pensativa, olhando o vago ...
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim ...

E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!



TORRE DE NÉVOA

Subi ao alto, à minha Torre esguia,
Feita de fumo, névoas e luar,
E pus-me, comovida, a conversar
Com os poetas mortos, todo o dia.

Contei-lhes os meus sonhos, a alegria
Dos versos que são meus, do meu sonhar,
E todos os poetas, a chorar,
Responderam-me então: “Que fantasia,

Criança doida e crente! Nós também
Tivemos ilusões, como ninguém,
E tudo nos fugiu, tudo morreu! ...”

Calaram-se os poetas, tristemente ...
E é desde então que eu choro amargamente
Na minha Torre esguia junto ao céu! ...



A MINHA DOR

À você

A minha Dor é um convento ideal
Cheio de claustros, sombras, arcarias,
Aonde a pedra em convulsões sombrias
Tem linhas dum requinte escultural.

Os sinos têm dobres de agonias
Ao gemer, comovidos, o seu mal ...
E todos têm sons de funeral
Ao bater horas, no correr dos dias ...

A minha Dor é um convento. Há lírios
Dum roxo macerado de martírios,
Tão belos como nunca os viu alguém!

Nesse triste convento aonde eu moro,
Noites e dias rezo e grito e choro,
E ninguém ouve ... ninguém vê ... ninguém ...



DIZERES ÍNTIMOS

É tão triste morrer na minha idade!
E vou ver os meus olhos, penitentes
Vestidinhos de roxo, como crentes
Do soturno convento da Saudade!

E logo vou olhar (com que ansiedade! ...)
As minhas mãos esguias, languescentes,
De brancos dedos, uns bebês doentes
Que hão-de morrer em plena mocidade!

E ser-se novo é ter-se o Paraíso,
É ter-se a estrada larga, ao sol, florida,
Aonde tudo é luz e graça e riso!

E os meus vinte e três anos ... (Sou tão nova!)
Dizem baixinho a rir: “Que linda a vida! ...”
Responde a minha Dor: “Que linda a cova!”



AS MINHAS ILUSÕES

Hora sagrada dum entardecer
De Outono, à beira-mar, cor de safira,
Soa no ar uma invisível lira ...
O sol é um doente a enlanguescer ...

A vaga estende os braços a suster,
Numa dor de revolta cheia de ira,
A doirada cabeça que delira
Num último suspiro, a estremecer!

O sol morreu ... e veste luto o mar ...
E eu vejo a urna de oiro, a balouçar,
À flor das ondas, num lençol de espuma.

As minhas Ilusões, doce tesoiro,
Também as vi levar em urna de oiro,
No mar da Vida, assim ... uma por uma ...



NEURASTENIA

Sinto hoje a alma cheia de tristeza!
Um sino dobra em mim Ave-Maria!
Lá fora, a chuva, brancas mãos esguias,
Faz na vidraça rendas de Veneza ...

O vento desgrenhado chora e reza
Por alma dos que estão nas agonias!
E flocos de neve, aves brancas, frias,
Batem as asas pela Natureza ...

Chuva ... tenho tristeza! Mas porquê?!
Vento ... tenho saudades! Mas de quê?!
Ó neve que destino triste o nosso!

Ó chuva! Ó vento! Ó neve! Que tortura!
Gritem ao mundo inteiro esta amargura,
Digam isto que sinto que eu não posso!! ...



PEQUENINA

À Maria Helena Falcão Risques

És pequenina e ris ... A boca breve
É um pequeno idílio cor-de-rosa ...
Haste de lírio frágil e mimosa!
Cofre de beijos feito sonho e neve!

Doce quimera que a nossa alma deve
Ao Céu que assim te faz tão graciosa!
Que nesta vida amarga e tormentosa
Te fez nascer como um perfume leve!

O ver o teu olhar faz bem à gente ...
E cheira e sabe, a nossa boca, a flores
Quando o teu nome diz, suavemente ...

Pequenina que a Mãe de Deus sonhou,
Que ela afaste de ti aquelas dores
Que fizeram de mim isto que sou!



A MAIOR TORTURA

A um grande poeta de Portugal!

Na vida, para mim, não há deleite.
Ando a chorar convulsa noite e dia ...
E não tenho uma sombra fugidia
Onde poise a cabeça, onde me deite!

E nem flor de lilás tenho que enfeite
A minha atroz, imensa nostalgia! ...
A minha pobre Mãe tão branca e fria
Deu-me a beber a Mágoa no seu leite!

Poeta, eu sou um cardo desprezado,
A urze que se pisa sob os pés.
Sou, como tu, um riso desgraçado!

Mas a minha tortura inda é maior:
Não ser poeta assim como tu és
Para gritar num verso a minha Dor! ...



A FLOR DO SONHO

A Flor do Sonho, alvíssima, divina,
Miraculosamente abriu em mim,
Como se uma magnólia de cetim
Fosse florir num muro todo em ruína.

Pende em meu seio a haste branda e fina
E não posso entender como é que, enfim,
Essa tão rara flor abriu assim! ...
Milagre ... fantasia ... ou, talvez, sina ...

Ó Flor que em mim nasceste sem abrolhos,
Que tem que sejam tristes os meus olhos
Se eles são tristes pelo amor de ti?! ...

Desde que em mim nasceste em noite calma,
Voou ao longe a asa da minha’alma
E nunca, nunca mais eu me entendi ...



NOITE DE SAUDADE

A Noite vem poisando devagar
Sobre a Terra, que inunda de amargura ...
E nem sequer a bênção do luar
A quis tornar divinamente pura ...

Ninguém vem atrás dela a acompanhar
A sua dor que é cheia de tortura ...
E eu oiço a Noite imensa soluçar!
E eu oiço soluçar a Noite escura!

Por que és assim tão escura, assim tão triste?!
É que, talvez, ó Noite, em ti existe
Uma Saudade igual à que eu contenho!

Saudade que eu sei donde me vem ...
Talvez de ti, ó Noite! ... Ou de ninguém! ...
Que eu nunca sei quem sou, nem o que tenho!!



ANGÚSTIA

Tortura do pensar! Triste lamento!
Quem nos dera calar a tua voz!
Quem nos dera cá dentro, muito a sós,
Estrangular a hidra num momento!

E não se quer pensar! ... e o pensamento
Sempre a morder-nos bem, dentro de nós ...
Querer apagar no céu – ó sonho atroz! –
O brilho duma estrela, com o vento! ...

E não se apaga, não ... nada se apaga!
Vem sempre rastejando como a vaga ...
Vem sempre perguntando: “O que te resta? ...”

Ah! não ser mais que o vago, o infinito!
Ser pedaço de gelo, ser granito,
Ser rugido de tigre na floresta!



AMIGA

Deixa-me ser a tua amiga, Amor,
A tua amiga só, já que não queres
Que pelo teu amor seja a melhor,
A mais triste de todas as mulheres.

Que só, de ti, me venha mágoa e dor
O que me importa a mim?! O que quiseres
É sempre um sonho bom! Seja o que for,
Bendito sejas tu por mo dizeres!

Beija-me as mãos, Amor, devagarinho ...
Como se os dois nascêssemos irmãos,
Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho ...

Beija-mas bem! ... Que fantasia louca
Guardar assim, fechados, nestas mãos
Os beijos que sonhei prà minha boca! ...



DESEJOS VÃOS

Eu queria ser o Mar de altivo porte
Que ri e canta, a vastidão imensa!
Eu queria ser a Pedra que não pensa,
A pedra do caminho, rude e forte!

Eu queria ser o Sol, a luz imensa,
O bem do que é humilde e não tem sorte!
Eu queria ser a árvore tosca e densa
Que ri do mundo vão e até a morte!

Mas o Mar também chora de tristeza ...
As árvores também, como quem reza,
Abrem, aos Céus, os braços, como um crente!

E o Sol altivo e forte, ao fim de um dia,
Tem lágrimas de sangue na agonia!
E as Pedras ... essas ... pisa-as toda a gente! ...



PIOR VELHICE

Sou velha e triste. Nunca o alvorecer
Dum riso são andou na minha boca!
Gritando que me acudam, em voz rouca,
Eu, náufraga da Vida, ando a morrer!

A Vida, que ao nascer, enfeita e touca
De alvas rosas a fronte da mulher,
Na minha fronte mística de louca
Martírios só poisou a emurchecer!

E dizem que sou nova ... A mocidade
Estará só, então, na nossa idade,
Ou está em nós e em nosso peito mora?!

Tenho a pior velhice, a que é mais triste,
Aquela onde nem sequer existe
Lembrança de ter sido nova ... outrora ...



A UM LIVRO

No silêncio de cinzas do meu Ser
Agita-se uma sombra de cipreste,
Sombra roubada ao livro que ando a ler,
A esse livro de mágoas que me deste.

Estranho livro aquele que escreveste,
Artista da saudade e do sofrer!
Estranho livro aquele em que puseste
Tudo o que eu sinto, sem poder dizer!

Leio-o, e folheio, assim, toda a minh’alma!
O livro que me deste é meu, e salma
As orações que choro e rio e canto! ...

Poeta igual a mim, ai que me dera
Dizer o que tu dizes! ... Quem soubera
Velar a minha Dor desse teu manto! ...



ALMA PERDIDA

Toda esta noite o rouxinol chorou,
Gemeu, rezou, gritou perdidamente!
Alma de rouxinol, alma da gente,
Tu és, talvez, alguém que se finou!

Tu és, talvez, um sonho que passou,
Que se fundiu na Dor, suavemente ...
Talvez sejas a alma, a alma doente
Dalguém que quis amar e nunca amou!

Toda a noite choraste ... e eu chorei
Talvez porque, ao ouvir-te, adivinhei
Que ninguém é mais triste do que nós!

Contaste tanta coisa à noite calma,
Que eu pensei que tu eras a minh’alma
Que chorasse perdida em tua voz! ...



DE JOELHOS

“Bendita seja a Mãe que te gerou.”
Bendito o leite que te fez crescer
Bendito o berço aonde te embalou
A tua ama, pra te adormecer!

Bendita essa canção que acalentou
Da tua vida o doce alvorecer ...
Bendita seja a Lua, que inundou
De luz, a Terra, só para te ver ...

Benditos sejam todos que te amarem,
As que em volta de ti ajoelharem
Numa grande paixão fervente e louca!

E se mais que eu, um dia, te quiser
Alguém, bendita seja essa Mulher,
Bendito seja o beijo dessa boca!!



LANGUIDEZ

Tardes da minha terra, doce encanto,
Tardes duma pureza de açucenas,
Tardes de sonho, as tardes de novenas,
Tardes de Portugal, as tardes de Anto,

Como eu vos quero e amo! Tanto! Tanto!
Horas benditas, leves como penas,
Horas de fumo e cinza, horas serenas,
Minhas horas de dor em que eu sou santo!

Fecho as pálpebras roxas, quase pretas,
Que poisam sobre duas violetas,
Asas leves cansadas de voar ...

E a minha boca tem uns beijos mudos ...
E as minhas mãos, uns pálidos veludos,
Traçam gestos de sonho pelo ar ...



PARA QUÊ?!

Tudo é vaidade neste mundo vão ...
Tudo é tristeza, tudo é pó, é nada!
E mal desponta em nós a madrugada,
Vem logo a noite encher o coração!

Até o amor nos mente, essa canção
Que o nosso peito ri à gargalhada,
Flor que é nascida e logo desfolhada,
Pétalas que se pisam pelo chão! ...

Beijos de amor! Pra quê?! ... Tristes vaidades!
Sonhos que logo são realidades,
Que nos deixam a alma como morta!

Só neles acredita quem é louca!
Beijos de amor que vão de boca em boca,
Como pobres que vão de porta em porta! ...



AO VENTO

O vento passa a rir, torna a passar,
Em gargalhadas ásperas de demente;
E esta minh’alma trágica e doente
Não sabe se há-de rir, se há-de chorar!

Vento de voz tristonha, voz plangente,
Vento que ris de mim sempre a troçar,
Vento que ris do mundo e do amor,
A tua voz tortura toda a gente! ...

Vale-te mais chorar, meu pobre amigo!
Desabafa essa dor a sós comigo,
E não rias assim ! ... Ó vento, chora!

Que eu bem conheço, amigo, esse fadário
Do nosso peito ser como um Calvário,
e a gente andar a rir pla vida fora!! ...



TÉDIO

Passo pálida e triste. Oiço dizer:
“Que branca que ela é! Parece morta!”
e eu que vou sonhando, vaga, absorta,
não tenho um gesto, ou um olhar sequer ...

Que diga o mundo e a gente o que quiser!
– O que é que isso me faz? O que me importa? ...
O frio que trago dentro gela e corta
Tudo que é sonho e graça na mulher!

O que é que me importa?! Essa tristeza
É menos dor intensa que frieza,
É um tédio profundo de viver!

E é tudo sempre o mesmo, eternamente ...
O mesmo lago plácido, dormente ...
E os dias, sempre os mesmos, a correr ...



A MINHA TRAGÉDIA

Tenho ódio à luz e raiva à claridade
Do sol, alegre, quente, na subida.
Parece que a minh’alma é perseguida
Por um carrasco cheio de maldade!

Ó minha vã, inútil mocidade,
Trazes-me embriagada, entontecida! ...
Duns beijos que me deste noutra vida,
Trago em meus lábios roxos, a saudade! ...

Eu não gosto do sol, eu tenho medo
Que me leiam nos olhos o segredo
De não amar ninguém, de ser assim!

Gosto da Noite imensa, triste, preta,
Como esta estranha e doida borboleta
Que eu sinto sempre a voltejar em mim! ...



SEM REMÉDIO

Aqueles que me têm muito amor
Não sabem o que sinto e o que sou ...
Não sabem que passou, um dia, a Dor
À minha porta e, nesse dia, entrou.

E é desde então que eu sinto este pavor,
Este frio que anda em mim, e que gelou
O que de bom me deu Nosso Senhor!
Se eu nem sei por onde ando e onde vou!!

Sinto os passos da Dor, essa cadência
Que é já tortura infinda, que é demência!
Que é já vontade doida de gritar!

E é sempre a mesma mágoa, o mesmo tédio,
A mesma angústia funda, sem remédio,
Andando atrás de mim, sem me largar!



MAIS TRISTE

É triste, diz a gente, a vastidão
Do mar imenso! E aquela voz fatal
Com que ele fala, agita o nosso mal!
E a Noite é triste como a Extrema-Unção!

É triste e dilacera o coração
Um poente do nosso Portugal!
E não vêem que eu sou ... eu ... afinal,
A coisa mais magoada das que são?! ...

Poentes de agonia trago-os eu
Dentro de mim e tudo quanto é meu
É um triste poente de amargura!

E a vastidão do Mar, toda essa água
Trago-a dentro de mim num mar de Mágoa!
E a noite sou eu própria! A Noite escura!!



VELHINHA

Se os que me viram já cheia de graça
Olharem bem de frente em mim,
Talvez, cheios de dor, digam assim:
“Já ela é velha! Como o tempo passa! ...”

Não sei rir e cantar por mais que faça!
Ó minhas mãos talhadas em marfim,
Deixem esse fio de oiro que esvoaça!
Deixem correr a vida até o fim!

Tenho vinte e três anos! Sou velhinha!
Tenho cabelos brancos e sou crente ...
Já murmuro orações ... falo sozinha ...

E o bando cor-de-rosa dos carinhos
Que tu me fazes, olho-os indulgente,
Como se fosse um bando de netinhos ...



EM BUSCA DO AMOR

O meu Destino disse-me a chorar:
“Pela estrada da Vida vai andando,
E, aos que vires passar, interrogando
Acerca do Amor, que hás-de encontrar.”

Fui pela estrada a rir e a cantar,
As contas do meu sonho desfilando ...
E noite e dia, à chuva e ao luar,
Fui sempre caminhando e perguntando ...

Mesmo a um velho eu perguntei: “Velhinho,
Viste o Amor acaso em teu caminho?”
E o velho estremeceu ... olhou ... e riu ...

Agora pela estrada, já cansados,
Voltam todos pra trás desanimados ...
E eu paro a murmurar: “Ninguém o viu! ...”



IMPOSSÍVEL

Disseram-me hoje, assim, ao ver-me triste:
“Parece Sexta-Feira de Paixão.
Sempre a cismar, cismar de olhos no chão,
Sempre a pensar na dor que não existe ...

O que é que tem?! Tão nova e sempre triste!
Faça por estar contente! Pois então?! ...”
Quando se sofre, o que se diz é vão ...
Meu coração, tudo, calado, ouviste ...

Os meus males ninguém mos adivinha ...
A minha Dor não fala, anda sozinha ...
Dissesse ela o que sente! Ai quem me dera! ...

Os males de Anto toda a gente os sabe!
Os meus ... ninguém ... A minha Dor não cabe
Nos cem milhões de versos que eu fizera! ...

FIM

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